sexta-feira, 1 de junho de 2012

////

Dossiê: Jogos Vorazes

Passados dois meses da estreia de Jogos Vorazes nos cinemas brasileiros, chegou o momento de refletir: o que está por trás desse sucesso todo? - Agradecemos ao pessoal do Falacultura por ter feito esse Dossiê incrível.-


Nesse dossiê…

- Crítica dos Livros

- Infográfico: paradigmas quebrados por Jogos Vorazes

- Crítica do Filme

- Infográfico: referências e alusões em Jogos Vorazes

- PROMOÇÃO: Jogos Vorazes – que a sorte esteja sempre a seu favor

Passado o hype em torno do lançamento do filme Jogos Vorazes no país, chegou o momento de refletir: todo o barulho em torno da trama de Suzanne Collins é justificado? Afinal, o que há por trás do sucesso de Jogos Vorazes?

Jogos Vorazes conta a história de Katniss Everdeen, uma jovem de dezesseis anos que vive em um futuro distópico. A protagonista vive em um dos distritos mais pobres de Panem, país fictício que foi erguido sobre os escombros dos Estados Unidos. Após a morte precoce de seu pai, a mãe de Katniss entra em depressão profunda, e resta à menina descobrir um modo de sustentar sua família, em especial sua irmã menor, Primrose; assim, Katniss tornou-se exímia caçadora.

Anualmente, há um sorteio entre os jovens dos distritos, que deverão participar dos Jogos Vorazes — onde lutarão até a morte, sendo televisionados ao vivo para toda Panem. Esse sacrifíco seria uma punição por uma rebelião dos distritos contra o governo ditatorial central, ocorrida 74 anos antes do início do livro, e um lembrete do poder da Capital sobre os distritos.

Quando sua irmã mais nova é sorteada ser enviada aos Jogos Vorazes, Katniss voluntaria-se para ir em seu lugar.


É a partir desse cenário que Suzanne Collins tece a trama da trilogia Jogos Vorazes. Misturando críticas bastante contemporâneas, personagens realísticas, referências históricas e mitológicas e uma narrativa fluída e magnética, a autora construiu um romance multifacetado, que acabou estigmatizado como “juvenil” apesar de sua complexidade e muitas camadas de interpretação o tornarem mais adequados para um público mais maduro.

Crítica dos Livros

Jogos Vorazes é uma história sobre uma distopia, que versa sobre os males da guerra. Ao longo da narrativa, somos confrontados com diversos dilemas éticos, aos quais a autora não traz soluções fáceis.

Para construir uma história sobre o poder e a falibilidade do homem, Collins teve que construir um conjunto de personagens extremamente humanos, complexos e falíveis — a começar por sua protagonista. Ainda que Katniss, de modo geral, seja admirável por sua coragem e seu amor incondicional à irmã, há diversas passagens em que ela toma decisões moralmente questionáveis. Afinal, ela é humana, tem apenas dezesseis anos, e quer sobreviver. São diversos os sentimentos que a movem, do amor e gratidão, ao egoísmo e vingança.

Mesmo outros personagens, que a priori poderiam parecer planos, surgem posteriormente em sua verdadeira complexidade. Um exemplo é o galanteador Finnick Odair, que surge caricato revela suas nuances aos poucos, e mesmo o “vilão” Snow, que vai de impenetrável a pateticamente vulnerável.


Outro grande mérito da história é a sua contraposição ao maniqueísmo tão presente em livros juvenis. Viciados, tentamos encontrar o “vilão”, o mal que deve ser aniquilado para um final feliz. Mas, com a progressão da trama, percebemos que as coisas não são assim simples. Na Arena, os Tributos mais poderosos são os vilões, mas acabamos por perceber que eles são vítimas como Peeta, Katniss e Rue; os controladores do Jogo são ruins, até que percebemos sua sujeição ao sistema; acreditamos então que o mal é o sistema, em um ciclo pelo qual Collins nos conduz com maestria, até percebermos que o verdadeiro mal é algo muito maior e mais abstrato do que estávamos imaginando.

Alegorias bem colocadas

Em oposição aos seus personagens esféricos, a autora posiciona estrategicamente alguns personagens alegóricos.

É o caso de Primrose, irmã mais nova de Katniss. Bondosa demais, cercada de um ar etéreo e inocente completamente incompatível com sua história de vida, Prim está longe de ser convincente. Ela representa a promessa do futuro, e em diversas passagens da narrativa Katniss apega-se a essa promessa para seguir em frente.


Já Peeta e Gale, ambos interesses amorosos da protagonista, representam duas faces da própria personalidade de Katniss. Gale é a rebelião e o instinto de sobrevivência. Desde o início da trama, Gale externa seu desejo em levantar-se contra a Capital; no terceiro livro, A Esperança, na qual Katniss está mais dividida, ele urge a amiga a unir-se aos rebeldes. Katniss associa Gale com as armadilhas, que no começo da história representam a única alternativa de sobrevivência – mas que tomarão um sentido bastante diverso no final.

Peeta é a esperança e a paz. O pão, símbolo desse personagem, representa para Katniss esperança, e também surge em momentos decisivos da trama. Peeta advoga constantemente contra a violência, mantendo-se firma nessa postura. Ainda que apenas simbolicamente, o Peeta de A Esperança aconselha Katniss pela TV a não participar de atos de violência. Há momentos em que faz alusão à desobediência civil e outros métodos pacíficos de resistência.

Nesse contexto, a indecisão de Katniss por um ou outro vai muito além de bobagem pseudo-romântica para atrair pré-adolescente: é uma metáfora para os dilemas de Katniss, que em alguns momentos sente a necessidade de rebelar-se contra a opressão da Capital (como no início de Em Chamas) e portanto sente-se atraída por Gale, e em outras afoga-se na destruição e malefícios da guerra e anseia por paz, desesperada pela presença de Peeta. Peeta e Gale são duas motivações internas de Katniss, com os quais ela tem dificuldade de lidar.

A realidade de Panem a visão de Katniss

Suzanne Collins posiciona esses personagens bem construídos em um mundo cheio de detalhes, de forma geral, bastante coerente. Há alguns excessos cometidos — sobretudo na criação das “mutações”, que muitas vezes são desnecessários e completamente inverossímeis, cortando o ritmo da narrativa — mas, em sua maioria, detalhes como a excentricidade dos habitantes da Capital e os mecanismos utilizados nas Arenas são importantes para dar textura ao mundo criado pela autora.


Nesse sentido, ela utiliza-se de um recurso essencial: a narrativa em primeira pessoa. Sabemos de tudo que ocorreu pelas palavras de Katniss, que, apesar de aparentemente estar contando-nos uma história de seu passado em algum momento de seu futuro, narra tudo como se ocorresse no tempo real — ou seja, como se ela mesma não fizesse ideia do que irá acontecer no momento seguinte.

O fato de das descrições saírem da cabeça de Katniss nos permitem perdoar alguns exageros de Collins; afinal, uma menina que viveu a vida toda em distrito afastado pode exagerar ao descrever roupas e maquiagens com as quais não está acostumada, ou delirar e enxergar colegas mortos em lobos mutantes.

A descrição de Katniss também enaltece o maior mérito de Collins: a narração do reality show. Assim como os Tributos, não sabemos o que está sendo exibido ao público, nem em que contexto está sendo colocado; nem imaginamos qual está sendo a reação ao que ocorre nos Jogos; e somos cegos para o que acontece aos outros Tributos que estão espalhados na Arena. Ou seja, a sensação é bastante próxima à de estar participando de um reality show, no sentido do conhecimento parcial dos acontecimentos.

Assim, engana-se quem acha que os livros de Jogos Vorazes são exclusivamente para o público juvenil. Eles podem ter alguns elementos que atraem esse público, como os protagonistas na mesma faixa etária e a ação, mas trazem também uma história muito interessante (e com uma mensagem poderosa) para outros públicos.



Infográfico: paradigmas quebrados por Jogos Vorazes

































































Crítica do Filme

Ao realizar o filme Jogos Vorazes, os roteiristas (entre eles, a própria Suzanne Collins) e o diretor Gary Ross tiveram que enfrentar um dilema: ou contariam a história sem a narrativa de Katniss (o que o tornaria, sem dúvida, muito diferente do livro); ou arriscavam-se a fazer um filme com narrativas sobre as ações, correndo o risco de ser monótono e forçado.
No final, adotaram uma estratégia bastante diferente: a versão cinematográfica de Jogos Vorazes não propõe-se a reproduzir na telona a história dos livros, mas de contar os mesmos acontecimentos sob outros ponto de vista, de forma complementar ao livro.

Assim, podemos ver no filme o trabalho dos que manipulam o Jogo, suas estratégias, e também a atuação de Haymitch para conseguir patrocinadores para Katniss e Peeta. Para poder levar adiante esse esquema, foram necessárias algumas adaptações, como aumentar a participação de César Flickerman (Stanley Tucci), que passa a explicar para o público (dos Jogos em Panem, e sentados nas poltronas do cinema) tudo sobre mutações e outras particularidades inventadas por Collins.

Também podemos testemunhar movimentos importantes para o restante da trama que acontecem fora do Jogo, como a revolta no Distrito 11 após a morte de Rue, um dos momentos mais marcantes do filme.


Mudanças reais

Além das adaptações relacionadas à mudança do foco narrativo, foram realizadas outras sem relação nenhuma com essa decisão.

Algumas foram extremamente bem sucedidas, como a mudança no destino de Seneca Crane (Wes Bentley), que sofreu uma sutil porém poderosa alteração.

Outras foram desastrosas, como a acelerada “recuperação” de Haymitch, que tirou sua profundidade e tornou o personagem artificial, e a tentativa de tecer um final feliz — sobretudo para Peeta, que teve todas suas perdas do Jogo mitigadas no filme — que afetou o tom do encerramento da trama.




O filme enquanto filme

Quanto ao filme enquanto filme, e não enquanto adaptação, também houve um equilíbrio entre erros e acertos de Gary Ross.

As referências estéticas usadas para trazer Panem aos nossos olhos, por exemplo, foram muito bem escolhidas e executadas com maestria. As cenas iniciais, que mostram o Seam, bairro pobre do Distrito 12, foram claramente inspiradas em registros fotográficos da Grande Depressão nos EUA. Os tons cinzentos, a poeira que contamina cada parte do cenário, parecem retirados diretamente desse período, e expressam bem a miséria e desesperança.


O contraste entre a miséria dos distritos e a riqueza da Capital são mostrados pelo uso de cores e detalhes para retratar o trem e a própria capital. Os docinhos refinados, figurinos e perucas exageradas fazem referência à corte de Maria Antonieta, um dos maiores símbolos da opulência, e podemos mesmo sentir influência do filme de Sophia Coppola sobre as escolhas de Gary Ross nesse momento.

O diretor também merece ser reconhecido por ter executado um feito bastante difícil, sobretudo no caso deJogos Vorazes: não há a glorificação da violência. Enquanto a maior parte dos atos violentos são colocados fora do enquandramento da câmera, na maior parte das lutas e ataques nossa sensação de terror e nojo sobrepõem-se à adrenalina (no sentido positivo). Mesmo quando ocorre a morte de “inimigos” dos protagonistas na Arena, não há um ar de triunfo ou mesmo de alívio, mas um aumento na angústia. Quando Clove, a cruel garota que arremessa facas, cai inerte ao chão, é quase impossível não enxergar ali uma criança vitimada por um sistema perverso.

A atuação do elenco, sobretudo dos Tributos, é essencial para conferir poder à história. É muito mais chocante vê-los matando uns aos outros, porque eles realmente agem como pré-adolescentes e adolescentes em um acampamento. A forma crua como tratam de morte e vida é um recurso explorado de forma inteligente, sobretudo nas cenas iniciais do Jogo.


E, por falar em interpretação, Jennifer Lawrence (que vive Katniss) e Stanley Tucci merecem destaque. A primeira, por sua interpretação impecável de uma personagem tão complexa (notem o sutil porém convincente desconforto de Katniss em seu vestido de entrevista); o segundo, por construir um personagem marcante e essencial, que mesmo caricato não torna-se inconveniente.

Os principais erros de Ross foram os relacionados aos enquadramentos e movimentos da câmera. A câmera em mãos, tremendo em cenas de ação ou deslocamento, é irritante e usada exaustivamente. Nos momentos em que Katniss deveria ficar desnorteada ou delirando, e vemos o mundo distorcido por seus olhos, efeito tal mal colocado que chega a ser cômico. Talvez tenham sido esses erros que custaram a Ross a direção da franquia, que passa agora às mãos de Francis Lawrence (Água para Elephantes).

Infográfico: influências e referências em Jogos Vorazes

Promoção: Que a sorte esteja sempre a seu favor!


Quer participar da Promoção? O FalaCultura em parceria com a Editora Rocco, estão promovendo a promoção Jogos Vorazes – que a sorte esteja sempre a seu favor. Você pode levar um box com os três livros da trilogia Jogos Vorazes, e ainda outros brindes como buttons, adesivos e marcadores de página.

Como participar?
Siga esses três passos:

• Curta a página do FalaCultura no Facebook

• Curta a página do Jogos Vorazes no Facebook

• Clique no Quero Participar, na  aba de Promoções via Facebook











Para ler o regulamento da promoção clique aqui e vá até o fim da matéria

Créditos

Nenhum comentário, seja o primeiro a comentar!

    Postar um comentário